Mensuração Florestal · Dendrometria

Biometria do Volume
Florestal

Da árvore individual à floresta — medição, fator de forma, parcelas amostrais e equivalente de carbono.

01

Volume da Árvore Individual

Atributos dendrométricos, modelo cilíndrico e fator de forma

📏 Atributos Dendrométricos Principais

Toda cubagem parte de três grandezas fundamentais medidas em campo.

📏
DAP — Diâmetro à Altura do Peito
Medido a 1,30 m do solo. Obtido com fita diamétrica (circunferência ÷ π) ou suta. É a variável de entrada mais usada em modelos de volume.
DAP = CAP / π
// CAP = circunferência à altura do peito
📐
Ht — Altura Total
Do nível do solo até o ápice da copa. Medida com hipsômetro (Blume-Leiss, Vertex) ou clinômetro por trigonometria. Variável de alto impacto no volume.
Ht = d · tan(α)
// d = distância horizontal, α = ângulo
🔵
g — Área Seccional Individual
Seção transversal do tronco (m²). Variável intermediária que liga DAP ao volume. A soma das áreas seccionais de todas as árvores, expandida para o hectare, fornece a Área Basal (G, m² ha⁻¹).
g = π/4 · DAP²
// DAP em metros

🔵 Do Cilindro Perfeito ao Tronco Real

O tronco não é um cilindro — ele afila da base ao ápice. Esse afunilamento é captado pelo fator de forma.

DAP Ht
Cilindro Perfeito
f = 1,0
DAP 1,3 m afila
Tronco Real
f ≈ 0,40–0,60
// Volume do cilindro
Vcil = g · Ht

// Volume real
V = f · g · Ht

// Fator de forma
f = Vreal / Vcilindro

// g = área seccional (m²)
Relação Fundamental

🧮 Calculadora de Volume — Árvore Individual

Ajuste os parâmetros e veja o efeito do fator de forma no volume real.

Área seccional g (m²)
V cilindro (m³)
×f =
V real (m³)
% do cilindro
// Exemplo calculado:
g = π/4 × 0,180² = 0,02545(área seccional)
Vcil = 0,02545 × 25,0 = 0,636
V = 0,50 × 0,636 = 0,318

📊 Métodos de Cubagem Rigorosa

Para obter o volume real com maior precisão, o tronco é dividido em seções.

MétodoFórmula
Smalian (g₁+g₂)/2 · L
Huber gmeio · L
Newton (g₁+4gm+g₂)/6 · L
Hohenadl 5 seções rel. (20%)
*Exata para paraboloides. Newton é o mais rigoroso na prática.

📋 Valores de Referência

Faixas típicas de fator de forma por espécie/sistema.

Espécief artificialContexto
Eucalyptus spp. 0,45–0,55 Cerrado / SE Brasil
Pinus spp. 0,38–0,48 Sul do Brasil
Nativas (densa) 0,40–0,55 Varia por espécie
Teca 0,42–0,50 Mato Grosso
📌
O fator de forma varia com a idade e o sítio. Sempre use tabelas locais ou calibre localmente.
02

Volume da Parcela

Totalização por soma das árvores e expansão para hectare

📐 Lógica da Parcela

Uma parcela é uma unidade de área conhecida (400–2500 m²) onde todas as árvores são medidas. Seu volume é a soma dos volumes individuais.

// Volume da parcela (m³)
Vparc = Σ Vi = Σ (fi · gi · Hti)

// g_i = área seccional da árvore i (m²)
// Expansão para hectare
V (m³ ha⁻¹) = Vparc × (10.000 / Aparc)

// A_parc = área da parcela em m²

🌿 Exemplo — Parcela de 20 × 25 m (500 m²)

Eucalyptus grandis × urophylla — 7 anos — Cerrado — f = 0,50

Árvore DAP (cm) Ht (m) g — Área Seccional (m²) Vcil (m³) f Vreal (m³)
Árvores na parcela
V parcela (m³)
V estimado (m³ ha⁻¹)
🎯
Referência: plantios comerciais de eucalipto de 7 anos em bom sítio (IMA ≥ 40 m³ ha⁻¹ ano⁻¹) devem apresentar estoque ≥ 280 m³ ha⁻¹. A estimativa acima está dentro dessa faixa de referência.

📊 Área Basal por Hectare (G)

A área seccional individual (g) de cada árvore, somada e expandida para o hectare, resulta na Área Basal do povoamento (G) — indicador de densidade e competição.

G (m² ha⁻¹) = Σgi × 10.000 / Aparc
G (m² ha⁻¹)
DAP médio (cm)
Árvores ha⁻¹
📌
Referência: eucalipto adulto de rotação 7 anos → G ≈ 15–25 m² ha⁻¹
03

Volume da Floresta — O Desafio da Amostragem

Inferência estatística, intensidade amostral e erro de amostragem

🌐 Por que não medimos todas as árvores?

Uma floresta comercial de eucalipto com 1.000 ha e espaçamento 3×3 m possui cerca de 1,1 milhão de árvores. Medir todas é inviável economicamente.

A solução é o inventário florestal por amostragem: medimos uma fração representativa (parcelas amostrais) e estimamos o total com base na teoria estatística.

Vtotal = V̄ (m³ ha⁻¹) × Atotal (ha)
V̄ é estimado pela média das parcelas ± erro de amostragem.
1,1 M
árvores / 1000 ha
0,1%
fração amostrada
~20
parcelas típicas
≤10%
erro admissível
🎲

Amostragem Aleatória Simples

Parcelas alocadas ao acaso em toda a área. Pressupõe homogeneidade. Melhor em talhões uniformes.

n ≥ (t² · s²) / (E% · V̄)²
n = nº de parcelas; t = t-Student; s² = variância; E% = erro admissível
📏

Amostragem Sistemática

Grade regular sobre o talhão. Mais prático em campo e garante cobertura espacial uniforme. Mais comum em inventários operacionais.

Grade: 50×50 m → 1 parc./0,25 ha → I = 0,2–0,5%
I = intensidade amostral (%)
📊

Amostragem Estratificada

Divide a floresta em estratos homogêneos (idade, sítio, clone). Aloca parcelas proporcionalmente. Reduz variância total.

est = Σ (Wh · V̄h)
Wh = peso do estrato h

🗺 Visualização — Floresta 400 árvores com 4 parcelas (AAS)

Pontos verdes = população florestal. Pontos azuis = parcelas amostrais. Clique para re-amostrar.

Árvore não amostrada
Árvore em parcela amostral
Parcelas amostradas
Intensidade (%)
V̄ estimado (m³ ha⁻¹)
Erro amostral (%)

📉 Erro × Intensidade Amostral

Linha tracejada = limite de 10% de erro. Aumentar a intensidade reduz o erro, mas com retorno decrescente.

📋 Tabela de Resultados — Inventário

Resumo estatístico típico de um inventário de Eucalyptus.

ParâmetroValor
Área total1.000 ha
Nº de parcelas40
Tamanho da parcela500 m²
Intensidade amostral0,20%
V̄ por parcela312 m³ ha⁻¹
s² (variância)1.240
Erro amostral±8,3%
V total estimado312.000 m³
Vtotal = 312 × 1.000 = 312.000 m³
IC₉₅%: [286.000; 338.000] m³
04

Carbono Florestal — CO₂ Equivalente

Do volume de madeira ao crédito de carbono

Uma árvore → Quanto CO₂?
kg de CO₂ equivalente armazenado
Para uma árvore com DAP = 18 cm, Ht = 25 m, f = 0,50

🧮 Calculadora CO₂ — Árvore Individual

⛓ Cadeia de Cálculo — Volume → Biomassa → Carbono → CO₂

① Volume
×ρ →
② Biomassa seca
kg (madeira)
×BEF →
③ Biomassa total
kg (acima do solo)
×0,5 →
④ Carbono
kg C
×3,667 →
⑤ CO₂ eq.
kg CO₂ eq.
📐
BEF (Biomass Expansion Factor): converte biomassa do tronco → biomassa total acima do solo (inclui galhos, casca, folhagem). Para eucalipto jovem: BEF ≈ 1,30–1,50 (IPCC 2006, Tier 2).
Fração de carbono: ≈ 50% da biomassa seca é carbono orgânico (IPCC padrão).
Razão CO₂/C = 44/12 = 3,667: massa molar do CO₂ ÷ massa molar do C.

📋 Parâmetros de Conversão (IPCC 2006)

ParâmetroSímboloEucalipto
Densidade básicaρ0,45–0,55 g/cm³
Fator de expansãoBEF1,30–1,50
Fração raízesR0,23–0,28
Fração de carbonoCF0,47–0,50
Razão CO₂/C3,667
CO₂eq = V · ρ · BEF · CF · 3,667

🌍 Contexto: CO₂ por Hectare

Escalando para uma plantação comercial (1.100 árvores ha⁻¹, 7 anos):

Biomassa acima do solo ~120–180 t ha⁻¹
Carbono estocado ~60–90 t C ha⁻¹
CO₂ equivalente ~220–330 t CO₂ ha⁻¹
Crédito potencial (REDD+) ~220–330 tCO₂e ha⁻¹
💡
Para créditos de carbono certificados, também se considera a biomassa abaixo do solo (raízes, R ≈ 0,25 × biomassa aérea).